As duas chaves mestras do coronavírus: estudo desvenda os mecanismos que o vírus da Covid-19 usa para entrar nas nossas células

A investigação pode ter impacto na prevenção de pandemias e no desenvolvimento de estratégias contra vários coronavírus.

 

 

Data: 15 de Setembro de 2026

 

 

Para entrar nas nossas células, o vírus da Covid-19 tem de fundir a membrana que o envolve com a membrana da célula-alvo. É aqui que entram em jogo os péptidos de fusão da proteína Spike. No fundo, estas regiões, funcionam como chaves moleculares que permitem ao vírus abrir a porta da célula-alvo e iniciar a fusão entre as duas membranas.

Investigadores do ITQB NOVA descobriram que o SARS-CoV-2 não tem apenas uma chave, mas duas: uma na extremidade N-terminal da proteína Spike e outra numa região interna. “As duas chaves atuam em conjunto e são necessárias para promover a fusão das membranas durante a entrada do vírus na célula,” explica Carolina Buga, primeira autora do novo estudo e investigadora no ITQB NOVA. No artigo publicado na revista Journal of Virology, da Sociedade Americana de Microbiologia, a equipa detalha que a primeira região inicia o contacto com a membrana das células do hospedeiro, permitindo que a segunda se insira nela mais a fundo e a destabilize ao ponto provocar a entrada do vírus. “Descobrimos que o vírus tem um mecanismo de fusão mais complexo do que o esperado,” conclui a investigadora.

Perceber em detalhe como um vírus consegue entrar nas nossas células é importante não só para compreender a sua biologia, mas também para identificar pontos para o bloquear. O trabalho foi fruto de uma colaboração com abordagens computacionais, de biofísica e de virologia. “Foi a combinação destas diferentes perspetivas que nos permitiu identificar os dois péptidos e demonstrar o papel que desempenham na fusão das membranas,” explica Diana Lousa, investigadora que liderou o estudo.  Ao Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade Nova de Lisboa, juntaram-se a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine e o Católica Biomedical Research Centre da Universidade Católica Portuguesa.

Os investigadores consideram ainda que este modelo de fusão possa ser comum a vários coronavírus que conservam os mesmos péptidos, o que confere a esta descoberta um interesse acrescido no contexto mais amplo da preparação e resposta a futuras pandemias.